quinta-feira, 15 de março de 2012

MACHADO DE ASSIS


Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e epilético. Era filho de Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, neto de escravos alforriados. Foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo freqüentado regularmente a escola.

Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornou-se em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos.

Entre os seis e os 14 anos, Machado perdeu sua única irmã, a mãe e o pai. Aos 16 anos empregou-se como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal "A Marmota". Em 1860, foi convidado por Quintino Bocaiúva para colaborar no "Diário do Rio de Janeiro". Datam dessa década quase todas as suas comédias teatrais e o livro de poemas "Crisálidas".
Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Esse casamento ocorreu contra a vontade da família da moça, uma vez que Machado tinha mais problemas do que fama. Essa união durou cerca de 35 anos e o casal não teve filhos. Carolina contribuiu para o amadurecimento intelectual de Machado, revelando-lhe os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa.

Na década de 1870, Machado publicou os poemas "Falenas" e "Americanas"; além dos "Contos Fluminenses" e "Histórias da meia-noite". O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Publicou os romances: "Ressurreição" (1872); "A Mão e a Luva" (1874); "Helena" (1876); "Iaiá Garcia" (1878). Essas obras ainda estão ligadas à literatura romântica e formam a chamada primeira fase de Machado de Assis.

Em 1873, o escritor foi nomeado primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras públicas. A sua carreira burocrática teve uma ascensão muito rápida, uma vez que, em 1892, já era diretor geral do Ministério da Viação. O emprego público garantiu a estabilidade financeira, uma vez que viver de literatura naquela época era quase impossível, mesmo para os bons escritores.

Na década de 1880, a obra de Machado de Assis sofreu uma verdadeira revolução, em termos de estilo e de conteúdo, inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Os romances "Memórias póstumas de Brás Cubas" (1881); "Quincas Borba" (1891); "Dom Casmurro" (1899) e os contos "Papéis avulsos" (1882); "Histórias sem data" (1884), "Várias histórias" (1896) e "Páginas recolhidas" (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude. O espírito crítico, a grande ironia, o pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais características.

Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente, pelo que a instituição também conhecida como casa de Machado de Assis. Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono, José de Alencar, foi amigo e admirador.

Em 1904, a morte de sua mulher foi um duro golpe para o escritor. Depois disso, raramente ele saía de casa e sua saúde foi piorando por causa da epilepsia. Os problemas nervosos e uma gagueira contribuíram ainda mais para o seu isolamento. São dessa época seus últimos romances "Esaú e Jacó" (1904) e "Memorial de Aires" (1908), que fecham o ciclo realista iniciado com "Brás Cubas"

Machado de Assis morreu em sua casa situada na rua Cosme Velho. Foi decretado luto oficial no Rio de Janeiro e seu enterro, acompanhado por uma multidão, atesta a fama alcançada pelo autor.

O fato de ter escrito em português, uma língua de poucos leitores, tornou difícil o reconhecimento internacional do autor. A partir do final do século 20, porém, suas obras têm sido traduzidas para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão, despertando interesse mundial. De fato, trata-se de um dos grandes nomes do Realismo, que pode se colocar lado a lado ao francês Flaubert ou ao russo Dostoievski, apenas para citar dois dos maiores autores do mesmo período na literatura universal.

A vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal. 

Não tive filhos não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria. 

Botas...as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar. 

Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar. 

Creia em si, mas não duvide sempre dos outros. 

Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento. 

Lágrimas não são argumentos. 

Não é amigo aquele que alardeia a amizade: é traficante; a amizade sente-se, não se diz. 

Não levante a espada sobre a cabeça de quem te pediu perdão. 

O acaso... é um Deus e um diabo ao mesmo tempo. 

O dinheiro não traz felicidade — para quem não sabe o que fazer com ele. 

Está morto: podemos elogiá-lo à vontade. 

A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. 

A mentira é muita vezes tão involuntária como a respiração. 

Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito.

Eu não sou homem que recuse elogios. Amo-os; eles fazem bem à alma e até ao corpo. As melhores digestões da minha vida são as dos jantares em que sou brindado. 

Não te irrites se te pagarem mal um benefício; antes cair das nuvens que de um terceiro andar. 

Há coisas que melhor se dizem calando. 

BONS AMIGOS
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!


Guarda estes versos que escrevi chorando como um alívio a minha saudade, como um dever do meu amor; e quando houver em ti um eco de saudade, beija estes versos que escrevi chorando. 

Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. 

A distância é como os ventos: apaga as velas e acende as grandes fogueiras. 

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas! 

A arte de viver consiste em tirar o maior bem do maior mal 

Defeitos não fazem mal, quando há vontade e poder de os corrigir. 

Acomodar-se às circunstâncias do momento, faz hábeis os homens e estimáveis as mulheres. 

“(...) Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis (...)” 

"Eu gosto de catar o mínimo e o escondido. Onde ninguém mete o nariz, aí entra o meu, com a curiosidade estreita e aguda que descobre o encoberto". 

Pois o silêncio não tem fisionomia, mas as palavras muitas faces... 

Não gosto de lágrimas, ainda em olhos de mulheres, sejam ou não bonitas; são confissões de fraqueza, e eu nasci com tédio aos fracos. Ao cabo, as mulheres são menos fracas que os homens,ou mais pacientes, mais capazes de sofrer a dor e a adversidade... 

SAUDADE.
Por que sinto falta de você? Por que está saudade?
Eu não te vejo mas imagino suas expressões, sua voz teu cheiro.
Sua amizade me faz sonhar com um carinho,
Um caminhar, a luz da lua, a beira mar.
Saudade este sentimento de vazio que me tira o sono
me fazendo sentir num triste abandono, é amizade eu sei, será amor talvez...
Só não quero perder sua amizade, esta amizade...
Que me fortalece me enobrece por ter você. 


Tudo é aliado do homem que sabe querer. 

A ingratidão é um direito do qual não se deve fazer uso. 

Não precisa correr tanto, o que é seu às mãos lhe há de vir... 

"...tempo é um tecido invisivel em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisivel é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro." 

A primeira glória é a reparação dos erros.

As ocasiões fazem as revoluções.

O amor é o rei dos moços e o tirano dos velhos.

O amor é o egoísmo duplicado.

Não se perde nada em parecer mau - ganha-se tanto como em sê-lo.

Também a dor tem suas hipocrisias.

O medo é um preconceito dos nervos. E um preconceito, desfaz-se - basta a simples reflexão.

Dormir é um modo interino de morrer.

O tempo é um rato roedor das coisas, que as diminui ou altera no sentido de lhes dar outro aspecto.

Matamos o tempo - o tempo nos enterra.

Amor repelido é amor multiplicado.

De todas as coisas humanas, a única que tem o fim em si mesma é a arte.

O destino, como os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho.

Não se ama duas vezes a mesma mulher.

A vaidade é um princípio de corrupção.

Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.

Suporta-se com muita paciência a dor no fígado alheio.

A fortuna troca, ás vezes, os cálculos da natureza. 

CASTRO ALVES



Antônio de Castro Alves
Considerado um dos mais brilhantes poetas românticos brasileiros, é chamado de "cantor dos escravos" pelo seu entusiasmo diante das grandes causas da liberdade e da justiça - a Independência na Bahia, a insurreição dos negros de Palmares, o papel da imprensa, e acima de tudo isso a luta contra a escravidão.

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu na fazenda Cabaceiras, próxima à vila de Curralinho, hoje cidade de Castro Alves, no Estado da Bahia. Era filho do médico Antônio José Alves e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando ele tinha apenas 12 anos. Por volta de 1853, mudou-se com a família para Salvador e lá estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa. Ainda adolescente, já demonstrava vocação para a poesia.

Aos dezesseis anos foi para o Recife e começou os preparatórios para se habilitar à matrícula na Academia de Direito. Mas achando a cidade insípida, dedicou-se á boêmia e aos amores. O resultado dessa vadiagem foi a reprovação no exame de geometria. Em 1864, porém, conseguiu matricular-se no Curso Jurídico. Participou ativamente da vida estudantil e literária, sendo notado como poeta e orador, o que mais tarde ira torná-lo um dos arautos do movimento abolicionista e da causa republicana.

Em 1862 escreveu o poema "A Destruição de Jerusalém", em 1863 "Pesadelo", "Meu Segredo" (já inspirado pela atriz Eugênia Câmara), "Cansaço", "Noite de Amor", "A Canção do Africano" e outros. Em 1864, o poema "Mocidade e Morte" demonstra a maturidade do poeta.

Em 1867, quase na metade do curso de direito, Castro Alves, apaixonado pela atriz portuguesa Eugênia Câmara (dez anos mais velha do que ele), parte com ela para uma temporada na Bahia, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Na Bahia, ela representa um drama em prosa escrito por ele: "O Gonzaga ou a Revolução de Minas". Na passagem pelo Rio, Castro Alves conheceu Machado de Assis, que o introduziu nos meios literários.

Em São Paulo, cursou o terceiro ano da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, mas nas férias do fim de 1868, feriu-se no pé direito com um tiro acidental de espingarda, por ocasião de uma caçada.

Disso resultou longa enfermidade, várias intervenções cirúrgicas e finalmente a amputação do pé. Antes de regressar à sua terra natal, publicou, em 1870, o livro "Espumas Flutuantes". Foi vitimado pela tuberculose um ano mais tarde.

Castro Alves é o patrono da cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras.

Suas principais obras são: "Espumas Flutuantes", "A Cachoeira de Paulo Afonso" e o drama já mencionado "Gonzaga ou a Revolução de Minas". Ao livro "Os Escravos" pertencem "Vozes d'África" e "O Navio Negreiro", considerados os dois poemas mais representativos de sua obra. 





Eu já não tenho mais vida!
Tu já não tens mais amor!
Tu só vives para o riso,
eu só vivo para dor. 







~*~* O laço de fita ~*~*


Não sabes, criança? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.


Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.


Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.


E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!


Meu Deusl As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.


Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.


Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.


Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepital
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.



Na hora em que a terra dorme
enrolada em frios véus,
eu ouço uma reza enorme
enchendo o abismo dos céus







Navio Negreiro
Castro Alves

  I
'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta. 
'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro... 
'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?... 
'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas... 
Donde vem? onde vai?  Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço. 
Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade! 
Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 
Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos! 
Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
.......................................................... 
Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa! 
Albatroz!  Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas.
 
II
    
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após. 
Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão! 
O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir! 
Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...
 
III
 
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!
 
IV
  
Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar... 
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs! 
E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais... 
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri! 
No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..." 
E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
          Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
          E ri-se Satanás!...
 
V
 
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! 
Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são?   Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!... 
São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . . 
São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael. 
Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!... 
Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer. 
Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar... 
Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!... 
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...
 
VI
    
Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!... 
Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!




terça-feira, 13 de março de 2012

VOLTAIRE



François-Marie Arouet, conhecido como Voltaire (1694-1778), nasceu e morreu em Paris. Um dos mais célebres escritores do século XVIII. Escreveu tragédia, epopéia, história, crítica, romance e filosofia, tendo se tornado notável em todos esses gêneros, mas principalmente na filosofia. Descendente da pequena nobreza européia, desde cedo destacou-se como brilhante pensador, tendo freqüentado as melhores universidades do seu tempo. Com pouco mais de 20 anos, já havia sido preso e exilado por ordem do regente Felipe de Orleans a quem havia dedicado panfletos satíricos e críticos. No seu exílio inglês escreveu as célebres Cartas inglesas ou filosóficas.
Por haver sempre atacado com energia a intolerância religiosa e defendido com calor todas as causas que lhe pareceram justas, levantou freqüentemente contra si a ira dos poderosos da época, as quais chegaram mesmo, por duas vezes, a levá-lo à Bastilha. Mas tanto pela justiça e oportunidade dos seus ataques, como pelo caráter fundamental das suas obras; tanto pela elegância do seu espírito como pela variedade de conhecimentos que mostrou possuir, exerceu em toda a França, durante mais de cinqüenta anos de incessante atividade, verdadeira soberania literária e social.
As obras que compôs são inúmeras, alcançando algumas edições completas 95 volumes. Algumas das mais importantes são: Mérope, Tancredo, Henríada, O século de Luís XIV, Micromegas, Zadig, Cândido e oDicionário filosófico.
Na vida de Voltaire há, ainda, um período que ficou célebre: o dos seus amores com a marquesa de Châtelet (1706-1749), mulher ilustradíssima e de grande formosura, que deixou várias obras e que exerceu sobre ele, durante alguns anos, bastante influência, levando-o ao estudo de Newton e de Leibnitz.
Seu derradeiro bilhete diz que “morria admirando os amigos, sem odiar os inimigos e detestando a superstição”.
Cronologia biobliográfica
1694   François-Marie Arouet nasce no dia 21 de novembro, último dos cinco filhos de François Arouet, notário, e Marguerite Daumard.
1701   Morte de sua mãe.
1704   François-Marie entra no liceu jesuíta Luis-le-Grand, depois de ter sido educado pelo abade de Châteneuf, seu padrinho.
1709-11 Já conhecido como poeta, o jovem François-Marie estuda retórica e filosofia, no que se sai com brilhantismo. Entra para a Escola de Direito.
1712   Nascimento de Jean-Jacques Rousseau.
1713   Enviado a Haya como secretário do embaixador da França, marquês de Châteneuf, irmão de seu padrinho, mantém uma ligação com uma jovem protestante, o que lhe vale a demissão do cargo e o retorno a Paris. Nascimento de Diderot.
1715   No dia 1º de setembro, morre Luiz XIV. Felipe de Orleãs torna-se regente. François-Marie escreve os primeiros contos e libera sua veia satírica, que não perdoa o regente.
1716   De maio a outubro, como conseqüência dos contos satíricos publicados, exílio em Sully-sur-Loire. Morte de Leibniz.
1717  Inicia a composição do poema Henriade. Pelas novelas satíricas contra o regente, é encarcerado na Bastilha por onze meses. Nascimento de d’Alembert.
1718   Libertado em abril, é exilado em Châtenay, quando adota o nome Voltaire, uma forma de se vingar do pai, do qual pretendia não ser filho. Sintomaticamente, em 18 de novembro se representa com sucesso sua peça Édipo.
1722   Morte de seu pai, François Arouet. Com a herança, Voltaire faz aplicações que resultam em bons rendimentos.
1723   Ligação com a senhora Bernières. Morre Felipe de Orleãs e o duque de Bourbon torna-se primeiro-ministro.
1724   Sua peça Mariamne é levada ao palco sem sucesso. Nasce Emmanuel Kant.
1726   Discussão com o cavaleiro de Rohan, que manda dar uma surra em Voltaire. Como exige o direito a um duelo, é preso na Bastilha, onde fica dois meses. Exílio na Inglaterra, onde, pelas mãos de lord Bolingbroke, relaciona-se com o círculo da alta cultura inglesa, entrando em contato com Berkeley, Swiff, Pope, estudando as instituições políticas inglesas, o pensamento de Locke, Bacon e Newton.
1728   Retorna clandestinamente à França.
1729   Retorna a Paris, onde residirá até 1733. Dedica-se a operações financeiras tortuosas e rentáveis.
1730   Conclui a História de Carlos XII. Em dezembro, primeira representação de Brutus.
1731   Como a polícia interditou a impressão de Carlos XII, Voltaire a imprime em Rouen. Ligação com a senhora Fontaine-Martel.
1732   Conclui uma versão das Cartas Filosóficas, nas quais critica o regime político francês, opondo-o ao liberalismo inglês. Morte da senhora Fontainne-Martel, em janeiro, e encontro com a senhora Châtelet, Émilie, que se torna sua amante e à qual permanecerá ligado até a morte dela. Sucesso triunfal com a tragédia Zaire.
1734   As Cartas Filosóficas são editadas na Inglaterra e na França e provocam escândalo. Para não ser preso, Voltaire se refugia na residência da senhora Châtelet, em Cyre-en-Champagne.
1735   Dedica-se a trabalhos de metafísica e física. Encenação de A morte de César.
1738   Escreve os primeiros Discursos sobre o homem e o conto Gangan.
1739   Acompanha a senhora Châtelet a Bruxelas, onde permanecerá até 1741, aproveitando para viajar à Holanda.
1740   Frederico II torna-se rei da Prússia.
1741   Começa a redação de uma obra que será o Ensaio sobre os costumes. Com a morte de Carlos VI, é declarada imperatriz sua filha Maria Tereza.
1741  Viagem a Bruxelas. Sua peça Maomé é interditada, em Paris, após a terceira representação. Frederico assina com a Áustria a paz de Breslau.
1744   Após a paz com a Prússia, a França declara guerra à Inglaterra e à Áustria. Com amigos no poder, Voltaire torna-se auxiliar do marques de Argenson, ministro dos negócios exteriores.
1745   Torna-se “historiógrafo da França”. Na ausência do rei, foi recebido por madame Pompadour e dará a entender, mais tarde, que se relacionou sexualmente com ela. Torna-se amante de madame Denis, sem separar-se de madame Châtelet. Conhece Jean-Jacques Rousseau.
1746   É eleito para a Academia Francesa. Recebe uma pensão do governo.
1747   Com a queda do marquês de Argenson, a situação de Voltaire se torna precária. Inicia Zadig.
1748   Madame Châtelet torna-se amante do poeta Saint-Lambert. Encenação de Sémiramis. Edição deZadig. Publicação de O Espírito das Leis, de Montesquieu, que não agrada a Voltaire.
1749   Madame Châtelet morre em conseqüência de complicações de parto. Voltaire escreve Catilina.
1750   Madame Dinis instala-se na residência de Voltaire. Em Portugal, o rei José I nomeia Pombal, por quem Voltaire nutre grande admiração, primeiro ministro.
1751   Trabalha na obra Século de Luís XIV. Em Portugal, Pombal extingue os autos-de-fé.
1752   Edição de Século de Luís XIV. Escreve os primeiros artigos de uma “enciclopédia da razão”. Atrito com Frederico pela sua crítica a Maupertuis.
1753   Breve reconciliação com Frederico. A caminho de Frankfurt, é seqüestrado por emissários de Frederico, que só o liberam após a restituição de manuscritos do rei que incluiu em sua bagagem.
1754   Publicação dos Anais do Império.
1755   Sem permissão para retornar à França, se instala na Suíça, nas proximidades de Genebra, onde adquire a quinta Les Délices. Em 1º de novembro ocorre o terremoto de Lisboa, que faz vinte mil mortos e leva Voltaire a colocar clara objeção ao otimismo leibniziano. Compõe o Poema sobre o desastre de Lisboa. Morre Montesquieu.
1757   Retoma a correspondência com Frederico. Segue sua atividade como polemista.
1758   Retoma a redação de Cândido. Entrega a Diderot todos os artigos que este solicitara para a Enciclopédia. Em outubro, conclui Cândido.
1759   Publicação simultânea de Cândido em Paris, Londres, Amsterdã e Genebra. A obra é condenada em Paris e em Genebra.
1760   Edita a tragédia Tancredo.
1761   Escreve as Cartas sobre a Nova Heloísa, revidando a obra A Nova Heloísa, de Rousseau.
1763   Publica o Tratado sobre a Tolerância, celebrando o triunfo da razão.
1765   Publicação de A Filosofia da História.
1767   Escreve o conto O Ingênuo, contra os abusos políticos.
1768   Publica O Homem de Quarenta Escudos, conto, sobre a corrupção e a desigualdade na distribuição de riquezas.
1772   Concluída a edição da Enciclopédia.
1774   Morte de Luís XV.
1776   Publica A Bíblia enfim explicada. 
1778 Voltaire prepara, a pedido de Beaumarchais, uma revisão de toda sua obra para uma edição completa. Sofre, a partir de maio, novos e severos ataques de estrangúria (dificuldade extrema de urinar). Morre no dia 30 de maio, atendido, a seu pedido, pelo abade Gautier. Deixa escrito que morria “adorando a Deus e a meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição”. Recebe um enterro cristão na abadia de Sullières.


Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas.


Deus me defende dos amigos, que dos inimigos me defendo eu.


Encontra-se oportunidade para fazer o mal cem vezes por dia e para fazer o bem uma vez por ano.


Escrevo-vos uma longa carta porque não tenho tempo de a escrever breve.


O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá.


Os infinitamente pequenos têm um orgulho infinitamente grande.


Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las.


Um mérito inegável da poesia: ela diz mais e em menor número de palavras que a prosa.


Uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males.


O público é uma besta feroz. Deve-se enjaulá-lo ou fugir dele.


É mais claro que o sol, que Deus criou a mulher para domar o homem.


Só se servem do pensamento para autorizar as suas injustiças e só empregam as palavras para disfarçar os pensamentos.


Aproximo-me suavemente do momento em que os filósofos e os imbecis têm o mesmo destino.


A via pela qual se ensinou durante largo tempo a arte de pensar, de certeza que é oposta ao dom de pensar.


e Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.


Respeito o meu Deus, mas amo o universo.


As paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar.


A alma é uma fogueira que convém alimentar, e que se apaga dado que não se aumente.


Façam o que fizerem, destruam a infâmia e amem aqueles que vos amam.


Há muito poucas repúblicas no mundo, e mesmo assim elas devem a liberdade aos seus rochedos ou ao mar que as defende. Os homens só raramente são os dignos de se governar a si mesmos.


Ensina-se os homens a serem honestos; sem isso, poucos chegariam a sê-lo.


Só fui à falência duas vezes. A primeira, quando perdi uma causa. A segunda, quando a ganhei.


Os leitores servem-se dos livros como os cidadãos dos homens. Não vivemos com todos os nossos contemporâneos, escolhemos alguns amigos.


Sufoca-se o espírito da criança com conhecimentos inúteis.


O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis.


Deixaremos este mundo tão tolo e tão malvado como o encontrámos quando chegámos a ele.


O interesse que tenho em acreditar numa coisa não é prova da existência dessa coisa.


Teria maior confiança no desempenho de um homem que espera ter uma grande recompensa do que no daquele que já a recebeu.


A espécie humana é a única que sabe que tem de morrer.


O segredo de aborrecer é dizer tudo.


Todo o homem é culpado do bem que não fez.


Deixem-se considerações aos vivos; aos mortos deve-se apenas a verdade.


Deus é um comediante a atuar para uma plateia assustada de mais para rir.


Todo o divórcio começa mais ou menos ao mesmo tempo que o casamento. O casamento talvez comece algumas semanas mais cedo.


As grandes coisas são muitas vezes mais fáceis do que aquilo que se pensa.


Um general vitorioso nunca cometeu erros aos olhos do público, ao passo que um general vencido só fez asneiras, por mais sensato que tenha sido o seu procedimento.


Quando mais envelhecemos, mais precisamos de ter que fazer. Mais vale morrer do que arrastarmos na ociosidade uma velhice insípida: trabalhar é viver.